Controle genômico do Mal de Chagas |
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O Mal de Chagas ou doença de Chagas (DCA) é uma infecção causada pelo protozoário flagelado Trypanosoma cruzi, que é transmitido por meio do contato direto com as fezes do inseto-vetor Triatoma infestans, popularmente chamado de “barbeiro”. No Brasil, atualmente predominam os casos crônicos decorrentes de infecção por via vetorial, com aproximadamente três milhões de indivíduos infectados. No entanto, nos últimos anos, a ocorrência de doença de Chagas aguda (DCA) tem sido observada em diferentes estados, em especial na região da Amazônia Legal. A transmissão pelo contato com as fezes é uma característica particular dessa doença que a diferencia de outras que também são transmitidas por insetos e por isso, chama a atenção dos pesquisadores para a busca de novas formas de controle do vetor. O interesse maior dos pesquisadores é conhecer melhor o mecanismo da relação vetor-agente etiológico no epitélio intestinal do barbeiro. O anúncio do seqüenciamento do genoma do barbeiro Rhodnius prolixus (2009) teve como conseqüência o início da identificação do transcriptoma relacionado ao trato digestório do inseto, tendo sido analisados entre 4 e 5 mil genes. Essa análise tem como objetivos esclarecer como se dá a interação entre o inseto e o protozoário, e compreender qual mecanismo da interação entre os dois. No ciclo de vida do T. cruzi, a forma não infectante para o ser humano (epimastigotas) interage com o sistema de membranas do intestino do barbeiro, dando início ao processo de reprodução. A partir dessa fase, ocorre a transformação do protozoário para a forma infectante (Tripomastigotas metacíclicos), encontrados na porção posterior do intestino (reto) do barbeiro. Essa diferenciação de forma não infectante para infectante, ainda não é bem compreendida pelos cientistas. O que já se sabe é que o ambiente ideal para a diferenciação e para esse tipo de infecção é a forma como o genoma se expressa no intestino. A fixação do protozoário na parede do intestino do barbeiro é feita por uma parte do flagelo, sendo assim, acredita-se que as proteínas ligadas à interação estejam presentes nas membranas da parede intestinal. A questão de interesse agora é saber se uma modificação nos genes relacionados a essa interação pode alterar o mecanismo de infecção. Em entrevista à Agência Fapesp, o professor do Departamento de Bioquímica do Instituto de Química da Universidade de São Paulo, Walter Terra, explicou que a idéia seria inibir seletivamente a expressão de um gene e analisar as consequências para inferir a função do gene desconhecido. A partir de uma sequência de genes, seria possível produzir uma molécula que vai se enrolar no RNA, suprimir a manifestação do gene e deixar de codificar a proteína, fazendo com que a infecção deixe de ocorrer. Ainda segundo informações do professor, cada tecido de inseto possui cerca de 6 mil proteínas, algumas comuns e outras específicas. A questão é identificar as específicas, presentes na parede do tubo digestório. De acordo com pesquisas já desenvolvidas pela equipe do professor, existem proteínas no barbeiro que eles não esperavam encontrar, como exemplo, uma delas, expressa no reto do inseto, é muito parecida com um gene marcador do câncer de bexiga. Os cientistas acreditam na existência de um conjunto de enzimas que ao mesmo tempo em que uma é expressa a outra é inibida. O professor destacou ainda que esse mecanismo talvez explique o fato de muitas vezes o barbeiro não ser afetado por um determinado inseticida. A expectativa dos pesquisadores, é que as informações obtidas a partir da identificação do transcriptoma, possam ajudar no desenvolvimento de outras formas de combate ao barbeiro por meio de uma nova classe de inseticidas ou mesmo uma vacina recombinante para a doença.
23/04/2010
Arlei Maturano - Equipe Biotec AHG |
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